Ontem fez 109 anos… #11/11/1904 – A REVOLTA DA VACINA TRANSFORMA O RIO DE JANEIRO EM PRAÇA DE GUERRA:

12 nov

#11/11/1904 – A REVOLTA DA VACINA TRANSFORMA O RIO DE JANEIRO EM PRAÇA DE GUERRA:

Nunca se viu nada igual nas ruas dvacinao Rio. A população, que como arma contava apenas com paus e pedras, enfrentou com coragem a força policial, esta sim, armada de espingardas e revólveres. Tudo começou com o anúncio da vacinação obrigatória contra a varíola, imposta por Oswaldo Cruz, com o aval do prefeito Pereira Passos e a aprovação do Congresso. Um ano antes, Cruz inventara um exército de mata-mosquitos. Dessa vez, criara uma tropa armada com seringas. As ordens são as mesmas: invadir as residências e aplicar a injeção a qualquer preço, sem perguntar se o morador concorda ou não em ser picado pelas agulhas.

Até mesmo o senador Ruy Barbosa se manifestou contra tamanha invasão de privacidade. “Assim como o direito veda ao poder humano invadir-nos a consciência, assim lhe veda transpor-nos a epiderme”, protestou em seu discurso no Senado.

Por sua vez, Cruz alegou que a vacinação é comum na Europa, onde já provou ser eficaz. Mas há quem discorde do sanitarista, como o senador Lauro Sodré, que afirmou que, além de provocar a própria varíola, a vacina causa inúmeros outros males. Apoiando o senador, estão outros positivistas como ele, monarquistas, florianistas e operários, que já haviam mostrado seu poder de mobilização na greve geral do ano anterior. Enquanto as autoridades discutem, a população, desgostosa com o governo desde que ficou desabrigada com o bota-abaixo, parte para a ação. Sem outras armas além dos escombros recolhidos nas ruas, ela enfrenta os policiais como pode. Bondes, postes de iluminação e até colchões e móveis tirados de dentro das casas servem para montar barricadas. Dezessete bondes foram tombados para impedir a ação das forças de segurança. A cena se repetiu por toda a cidade. Do Encantado ao Jardim Botânico, não ficou um único poste de iluminação de pé. A Saúde foi apelidada de Porto Arthur, nome do local, onde, na Ásia, guerriavam japoneses e russos. No dia 14, aproveitando-se da batalha nas ruas, 300 cadetes da escola militar tomaram o prédio da Praia Vermelha e, liderados pelos generais florianistas Silva Travassos e Olímpio Silveira, marcharam rumo ao Palácio do Catete, onde enfrentaram e venceram os 2 mil homens da guarda palaciana. Os feridos entre os cadetes, no entanto, eram muitos, e o grupo foi obrigado a retornar para a escola, onde foram subjugados no dia seguinte. Foram cinco dias de conflitos sangrentos. No fim, a força das armas, apoiada pela decretação do estado de sítio, falou mais alto. A vacinação foi feita e, pelo que mostraram as estatísticas, a varíola realmente desapareceu da então capital da República. Apenas 39 casos foram registrados em todo o ano de 1904, contra os mais de 600 de 1903. Porém, o preço da conquista sanitária foi alto: 30 mortos, 110 feridos, 945 presos, 454 homens enfiados em sujos porões de navios e mandados para o Acre, e 7 estrangeiros extraditados. Ao fim, a Revolta da Vacina permanece como exemplo quase único na história do país de movimento popular de êxito baseado na defesa dos direitos dos cidadãos de não serem arbitrariamente tratados pelo governo. Mesmo que a vitória não tenha sido traduzida em mudanças políticas imediatas além da interrupção da vacinação, ela certamente deixou entre os que dela participaram um sentimento profundo de orgulho e auto-estímulo, passo importante na formação da cidadania. Fonte: Jornal do Brasil.

Por surasil

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